segunda-feira, 23 de maio de 2011

Uma tarde pra vida inteira.




Aí cheguei na rodoviária e comprei passagem pro próximo ônibus. Ele saía daqui 15 minutos, ainda tinha um tempinho pra buscar uma água. O destino era uma cidadezinha no sul de Minas Gerais, 4 horas da Capital Belo Horizonte.

Sentei na janela e coloquei meus fones de ouvido. No mp3 tocava MPB, enquanto meus olhos percorriam as paisagens, as serras, as casinhas no meio do nada. Enquanto isso pensava na minha vida, na profissão que escolhi, na pessoa que eu estava me tornando, nas opiniões que eu tinha sobre questões cotidianas. Era um bom momento para rever meus pensamentos.

Porém foi quando meus olhos se abriram e percebi que já havia chegado no meu destino. Do outro lado da rua já se encontrava um hotel, simples, porém aconchegante. Deixo a mochila no quarto e vou caminhar pela cidade. Como toda cidade do interior tem uma igreja, uma praça, uma rua que vai, uma que vem e alguns butecos. Sigo pela rua principal até cair numa estradinha de terra, na qual resolvo me aventurar a caminhar mais um pouco. Ao andar pela estradinha, encontro no meio do mato uma cerca e uma casinha lá no fundo. Vou até a porta da casinha e bato palmas: " hô de casaaa", grito.

É aí que me surpreendo. A porta se abre e sai de dentro da casa uma senhorinha sem nenhum dente na boca, sorrindo o sorriso mais simples e verdadeiro que eu poderia imaginar, dizendo:
" Minha neta querida! Como você demorou a chegar! Entra, vamos tomar um cafezinho..." Mesa farta com bolo de fubá, queijo, pão caseiro, leite e café fresquinho. A casa era simples, mas muito bonitinha. Várias fotos antigas pelas paredes, um sofá coberto de crochê colorido, um cachorro na porta dormindo. Fogão à lenha e um quartinho com uma cama e um armário. Tudo parecia ser do século retrasado, mas nem por isso estava precário.

Passei uma tarde super agradável, tomando o café da dona Maria e ouvindo suas histórias, afinal não tive coragem de desmentir a história de eu ser sua neta, coitadinha...

Ao chegar no hotel, pergunto ao gerente se ele sabia da tal velhinha. Ele me disse que a velhinha morava sozinha, mas todos os dias algum funcionário do hotel ia vê-la, já que toda a família foi embora e nunca mais ninguém voltou. A Dona Maria vive só desde então, adotando todas as pessoas na cidade como seus netos, filhos, noras, parentes em geral. " Ela sabe que você não era neta dela, mas não se permite viver na solidão. E na verdade, ela é a menos sozinha mesmo, ela tem o mundo inteiro pra ser parente. A gente devia ser assim também né? Agir como se todo mundo fosse parente, o mundo ia ser melhor né? Disse o gerente.

Vó sempre ensina algo que a gente já sabe, no final das contas, mas nunca aprendeu de fato.

post inspirado do blog da Laurinha, minha querida amiga.

4 comentários:

Sandro Ataliba disse...

Isso aconteceu mesmo? De verdade? Que história mais bonitinha. rs
Quero Julho, para matar as saudades.
Beijo, irmã!

Natália disse...

Lindo, lindo! ^^

Alessandra Britto disse...

Linda história, um bom exemplo de que ninguém é sozinho no mundo ^^
Se faltar família a gente inventa ;)

Victoria disse...

Cê me mata de orgulho com esse dom literário. Te amo amiga! Lindo o texto! Amei amei amei!!!
beijooo