quarta-feira, 25 de maio de 2011

Numa manhã de outono, ganhei um presente.


O Guardador de Rebanhos, Poema II -
O meu Olhar
Alberto Caeiro, heterónimo de Fernando Pessoa (1888-1935)

O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender ...
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...
Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar ...
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar...


A questão é a gente lembrar disso antes de enlouquecer...
Presente da Thais Tanure, minha amiga de trabalho e de filosofia.

Um comentário:

Thaís Alves disse...

Linda demais! Nossa, queria muito ter escrito isso. Queria ter o dom de não pensar para pensar nisso! Lindo! Beijos, irmã!